Rui Cardoso
  • Terapia
    • Terapia Psicoemocional
    • Terapia de Som
    • Massagem Sensorial
  • Human Design
    • Análises de HD
    • Workshop: Ser Gerador
    • Workshop: Ser Projector
  • Eventos
    • Concerto Imersivo
    • Prática de Regulação Interna
    • Workshop: A Alta Sensibilidade
  • Criações
    • O Blog
    • Os Livros
    • O Consultório
  • Quem Sou
    • Biografia
    • Formação
    • Testemunhos
  • Contactos
Rui Cardoso | O Blog
​

Saúde . Bem-Estar . Desenvolvimento Humano

O que ainda é nosso

17/4/2026

1 Comentário

 
Pergunto-me muitas vezes em que momento algo que atravessa um filtro — digital ou analógico — deixa de ser verdadeiramente nosso.

Talvez esta pergunta tenha começado há muitos anos, quando deixei a máquina de escrever e passei para o computador. Houve aí uma mudança silenciosa na relação com a palavra. A escrita deixou de ter o peso mecânico da tecla, o som seco da pancada no papel, a inevitabilidade do erro visível. Passou a existir a facilidade de apagar, corrigir, reorganizar, como se a própria ideia pudesse tornar-se mais maleável e menos definitiva.

Mais tarde aconteceu algo semelhante com a fotografia, quando transitei do analógico para o digital. A imagem deixou de pedir espera. Já não havia o tempo da revelação, a surpresa do negativo, o intervalo entre o momento vivido e o momento observado. Tudo passou a ser imediato, editável, repetível. E, com isso, algo se ganhou, mas talvez algo também se tenha diluído.

Esta transformação não se ficou pela escrita ou pela imagem.

Sou utilizador de música em formato digital há cerca de 24 anos. A música acompanha-me assim há grande parte da minha vida. Há cerca de 2 anos separei-me de 90% dos meus CDs, porque senti que já não os utilizava.

Nesse caso, não ter a parte física do disco não me trouxe grande perda. O que me move na música é a escuta, a liberdade de saltar entre artistas, géneros e épocas, porque o meu gosto sempre foi profundamente eclético.
Curiosamente, raramente paguei pelos serviços de streaming para escutar música. Há algo em mim que sente que esse modelo nem sempre é a melhor forma de honrar quem cria.

Talvez devido a isso, sempre que posso, escolho ir a concertos e viver a experiência viva, quase analógica, do som no corpo, da vibração no espaço, da presença partilhada com outros. E quando compro música, muitas vezes faço-o diretamente à banda, ainda que por via digital, porque aí sinto uma relação mais direta com a origem da criação.

No meio disto tudo, há uma coisa que permanece profundamente analógica para mim: os livros. A minha biblioteca a esta data conta com 373 livros e apenas 61 são em digital porque só assim os conseguia.

Ler no digital nunca teve para mim a mesma presença. Não tem o mesmo impacto da palavra impressa. Falta-lhe o peso do livro nas mãos, o tato do papel, o deslizar dos dedos sobre a página, o cheiro, a espessura, a sensação física de avançar e de habitar a leitura com o corpo inteiro.

No livro, o corpo participa.

E talvez seja por isso que sinto que, depois de tanta anestesia digital, haverá inevitavelmente um regresso ao analógico. Não por nostalgia, mas por necessidade de presença. Quanto mais mediada se torna a experiência, mais o corpo parece pedir realidade.

Talvez também por isso me fascine tanto observar canais de pessoas que vivem fora da rede — no Alasca, na Sibéria, em condições extremas, longe da hiperconectividade que marca o nosso quotidiano. Há algo nessas vidas mais cruas que me recorda a essência do humano. Uma relação mais direta com o tempo, com a matéria, com a sobrevivência, com a simplicidade do gesto.

Isso faz-me pensar no que temos vindo a perder à medida que ganhamos comodidade.

Ouvi recentemente uma frase que ficou a ecoar em mim: commodities gain, skills lost, em  português deve ser algo como: comodidades adquiridas, habilidades perdidas.
  Quanto mais comodidade, mais algumas competências se perdem. E isso fez-me refletir profundamente sobre as aptidões que deixámos de cultivar porque passámos a delegá-las — à tecnologia, aos sistemas, ao outro.

No meu caso, por viver com neurodivergência e com leve dislexia, tanto na escrita como na oralidade, utilizar ferramentas que transformam pensamento em texto ou áudio tornou-se profundamente libertador.

Talvez não saibas, mas durante muitos anos a minha relação com a palavra escrita e a leitura nem sempre foi simples, fui um daqueles alunos que penou um pouco no ensino obrigatório, excepto quando estudei artes entre o 10ª e 12ª anos.

Então ler publicamente era (e ainda é) um dos meus maiores medos e bloqueios, santa terapia que tirou esse mal de mim. Por isso poder hoje usar a oralidade como ponte para a escrita é uma forma de liberdade, criatividade e não uma prisão.

Por isso, não sinto a tecnologia como algo que me retira identidade. Pelo contrário, quando usada com consciência, sinto-a como uma extensão que me permite expressar-me de forma mais autêntica.

Mas também sei que, se um dia tudo falhar, continuo a ter aquilo que sempre esteve comigo: papel e caneta, preta de cor para melhor contrastar com o imaculado papel.

Aliás, foi precisamente aí que tudo começou.

Foi no journaling, na escrita manual, no diário íntimo dos últimos quatro anos, que estas reflexões começaram a nascer. Antes de qualquer aplicação, antes de qualquer ferramenta, houve a relação direta entre pensamento, corpo e palavra. Houve a pausa. Houve o gesto de escrever à mão aquilo que ainda não sabia nomear.

Talvez a grande questão do nosso tempo não seja escolher entre digital ou analógico, mas perceber o que cada um faz à nossa presença, à nossa autonomia e à nossa humanidade.

O que nos aproxima de nós?
O que nos afasta?
O que nos massifica?
E o que ainda preserva a singularidade do gesto?

Talvez a reflexão seja esta:
— Que competências, aptidões ou formas de presença tens vindo a delegar por comodidade, e o que isso tem feito à tua relação contigo próprio?

16 de abril de 2026
#epifaniareflexiva #blog #notasdeser
1 Comentário
Rui
18/4/2026 11:21:27

teste

Responder



Deixe uma resposta.

    Autor

    Este é um espaço de escrita e partilha, em forma de blog, onde dou forma às reflexões que me atravessam sobre o que é ser humano.

    Aqui escrevo sobre as pequenas e grandes observações da vida, pensamentos que nascem da experiência, da prática clínica e da minha própria caminhada.

    Escrevo também sobre saúde, bem-estar e desenvolvimento humano.

    São ideias que começam no silêncio, ou por vezes no caos, e que passam para palavras.

    Não é um lugar de certezas absolutas, mas de consciência, questionamento e presença.
    ​

    Um convite a parar, escutar e viver com mais verdade.

    Arquivos

    Abril 2026
    Março 2026
    Fevereiro 2026
    Outubro 2022

    Categorias

    Tudo
    Epifaniareflexiva
    Eventos
    Human Reset
    Notas De Ser
    Reflexões

    Feed RSS

Com tecnologia Crie um website único com modelos personalizáveis.
  • Terapia
    • Terapia Psicoemocional
    • Terapia de Som
    • Massagem Sensorial
  • Human Design
    • Análises de HD
    • Workshop: Ser Gerador
    • Workshop: Ser Projector
  • Eventos
    • Concerto Imersivo
    • Prática de Regulação Interna
    • Workshop: A Alta Sensibilidade
  • Criações
    • O Blog
    • Os Livros
    • O Consultório
  • Quem Sou
    • Biografia
    • Formação
    • Testemunhos
  • Contactos