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Rui Cardoso | O Blog
​

Saúde . Bem-Estar . Desenvolvimento Humano

​Amar sem ilusão

8/3/2026

2 Comentários

 
Ao longo dos anos fui percebendo que a forma como amo mudou. Durante muito tempo procurei aprender a amar-me e a amar os outros, como se o amor fosse algo que tivesse de alcançar ou conquistar. Mas nos últimos quatro anos algo começou a transformar-se silenciosamente em mim.

De certa forma, deixei de tentar amar de uma determinada maneira. Comecei, antes, a amar a própria vida. A render-me um pouco mais ao que ela é. A perceber que mesmo no caos, mesmo na incerteza, pode existir uma forma de amor que não depende das circunstâncias.

Para mim, hoje, amor aproxima-se muito da aceitação. Uma espécie de rendição ao que é. Não uma resignação passiva, mas um reconhecimento profundo de que a vida acontece para além das nossas ideias sobre como ela deveria ser.

Muitas pessoas chamam-lhe universo. Outras chamam-lhe divino, consciência, presença ou simplesmente vida. As palavras mudam, mas aquilo a que apontam parece ser sempre o mesmo: tudo o que existe.

Talvez por isso o título do meu livro tenha surgido de forma tão natural: Se tudo for nada, nada serei.
Porque, às vezes, quando retiramos as projeções e as expectativas, o amor parece ser exatamente isso — tudo e nada ao mesmo tempo.

Também percebi que cada pessoa olha para o amor através da sua própria lente. Para alguns é sentimento, para outros é escolha, para outros ainda é uma prática ou um estado de consciência. E por vezes pergunto-me: será que o amor é algo que sentimos… ou algo que somos?

A verdade é que esta palavra foi usada tantas vezes, por tantas tradições, religiões, filosofias e discursos espirituais, que acabou por se tornar, em muitos contextos, quase vazia. O amor tornou-se um ideal a alcançar, uma promessa distante, uma moeda de troca, ou até uma forma subtil de manipulação e condicionamento.

Talvez por isso comece a sentir que amar sem ilusão é algo mais simples — e ao mesmo tempo mais desafiante.
Talvez seja simplesmente ser quem somos. Com virtudes e falhas. Com luz e sombra. Com momentos de clareza e momentos de confusão.

Ser humano na imperfeição de um universo que também parece imperfeito.
Vivemos tempos que muitas vezes parecem caóticos. Mas, se olharmos para a história da humanidade, veremos que o caos sempre fez parte do movimento. Muitas vezes é dele que nasce uma nova ordem. Tal como da dor pode nascer uma compreensão mais profunda do amor.

Curiosamente, muitas das vezes em que sentimos dor é precisamente porque amámos.

Estar vivo, nesta pele humana, é viver a experiência das dualidades. Amor e medo. Confiança e dúvida. Expansão e retração. Tudo parece mover-se entre polos.
Talvez seja essa própria dualidade que nos confunde. Porque aprendemos a acreditar que, se num momento sentimos medo, então deixámos de amar. Ou que, se a dúvida aparece, então algo está errado dentro de nós.

Mas talvez o amor não seja a ausência dessas experiências. Talvez seja simplesmente a capacidade de continuar presente no meio delas.

E quando olho para o mundo atual, onde tantas vezes o medo parece dominar, pergunto-me o que ficará realmente deste conceito de amor.

Talvez daqui a alguns anos possamos olhar para trás e perceber que o amor nunca foi uma ideia perfeita, nem um estado permanente. Talvez tenha sido sempre algo mais simples: a aceitação de sermos quem somos.

E talvez, quando essa aceitação se tornar mais natural — em nós e entre nós — o medo deixe de ser a nota dominante desta música que estamos a tocar.

Nesse momento, a manipulação poderá revelar-se apenas como uma escolha ou uma ilusão.
E o condicionamento deixará de ser destino, passando a ser apenas uma forma possível — entre muitas — de viver em sociedade.

08.03.2026 /  #epifaniareflexiva #autoconhecimento # blog #notasdeser
2 Comentários
Rui Teixeiea
9/3/2026 17:29:10

O trabalho do brilhante Rui Cardoso em “Amar sem Ilusão” lembra-nos que amar verdadeiramente é aceitar o outro como ele é, sem criar expectativas irreais. Amar sem ilusão é escolher ficar com lucidez, respeito e verdade, mesmo quando a paixão deixa de ser fantasia. ❤️

Responder
Rui
12/3/2026 10:44:10

Obrigado por leres. Um xi 4 you RuiTx

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    Autor

    Este é um espaço de escrita e partilha, em forma de blog, onde dou forma às reflexões que me atravessam sobre o que é ser humano.

    Aqui escrevo sobre as pequenas e grandes observações da vida, pensamentos que nascem da experiência, da prática clínica e da minha própria caminhada.

    Escrevo também sobre saúde, bem-estar e desenvolvimento humano.

    São ideias que começam no silêncio, ou por vezes no caos, e que passam para palavras.

    Não é um lugar de certezas absolutas, mas de consciência, questionamento e presença.
    ​

    Um convite a parar, escutar e viver com mais verdade.

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