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Ao longo dos anos fui percebendo que a forma como amo mudou. Durante muito tempo procurei aprender a amar-me e a amar os outros, como se o amor fosse algo que tivesse de alcançar ou conquistar. Mas nos últimos quatro anos algo começou a transformar-se silenciosamente em mim.
De certa forma, deixei de tentar amar de uma determinada maneira. Comecei, antes, a amar a própria vida. A render-me um pouco mais ao que ela é. A perceber que mesmo no caos, mesmo na incerteza, pode existir uma forma de amor que não depende das circunstâncias. Para mim, hoje, amor aproxima-se muito da aceitação. Uma espécie de rendição ao que é. Não uma resignação passiva, mas um reconhecimento profundo de que a vida acontece para além das nossas ideias sobre como ela deveria ser. Muitas pessoas chamam-lhe universo. Outras chamam-lhe divino, consciência, presença ou simplesmente vida. As palavras mudam, mas aquilo a que apontam parece ser sempre o mesmo: tudo o que existe. Talvez por isso o título do meu livro tenha surgido de forma tão natural: Se tudo for nada, nada serei. Porque, às vezes, quando retiramos as projeções e as expectativas, o amor parece ser exatamente isso — tudo e nada ao mesmo tempo. Também percebi que cada pessoa olha para o amor através da sua própria lente. Para alguns é sentimento, para outros é escolha, para outros ainda é uma prática ou um estado de consciência. E por vezes pergunto-me: será que o amor é algo que sentimos… ou algo que somos? A verdade é que esta palavra foi usada tantas vezes, por tantas tradições, religiões, filosofias e discursos espirituais, que acabou por se tornar, em muitos contextos, quase vazia. O amor tornou-se um ideal a alcançar, uma promessa distante, uma moeda de troca, ou até uma forma subtil de manipulação e condicionamento. Talvez por isso comece a sentir que amar sem ilusão é algo mais simples — e ao mesmo tempo mais desafiante. Talvez seja simplesmente ser quem somos. Com virtudes e falhas. Com luz e sombra. Com momentos de clareza e momentos de confusão. Ser humano na imperfeição de um universo que também parece imperfeito. Vivemos tempos que muitas vezes parecem caóticos. Mas, se olharmos para a história da humanidade, veremos que o caos sempre fez parte do movimento. Muitas vezes é dele que nasce uma nova ordem. Tal como da dor pode nascer uma compreensão mais profunda do amor. Curiosamente, muitas das vezes em que sentimos dor é precisamente porque amámos. Estar vivo, nesta pele humana, é viver a experiência das dualidades. Amor e medo. Confiança e dúvida. Expansão e retração. Tudo parece mover-se entre polos. Talvez seja essa própria dualidade que nos confunde. Porque aprendemos a acreditar que, se num momento sentimos medo, então deixámos de amar. Ou que, se a dúvida aparece, então algo está errado dentro de nós. Mas talvez o amor não seja a ausência dessas experiências. Talvez seja simplesmente a capacidade de continuar presente no meio delas. E quando olho para o mundo atual, onde tantas vezes o medo parece dominar, pergunto-me o que ficará realmente deste conceito de amor. Talvez daqui a alguns anos possamos olhar para trás e perceber que o amor nunca foi uma ideia perfeita, nem um estado permanente. Talvez tenha sido sempre algo mais simples: a aceitação de sermos quem somos. E talvez, quando essa aceitação se tornar mais natural — em nós e entre nós — o medo deixe de ser a nota dominante desta música que estamos a tocar. Nesse momento, a manipulação poderá revelar-se apenas como uma escolha ou uma ilusão. E o condicionamento deixará de ser destino, passando a ser apenas uma forma possível — entre muitas — de viver em sociedade. 08.03.2026 / #epifaniareflexiva #autoconhecimento # blog #notasdeser
2 Comentários
Rui Teixeiea
9/3/2026 17:29:10
O trabalho do brilhante Rui Cardoso em “Amar sem Ilusão” lembra-nos que amar verdadeiramente é aceitar o outro como ele é, sem criar expectativas irreais. Amar sem ilusão é escolher ficar com lucidez, respeito e verdade, mesmo quando a paixão deixa de ser fantasia. ❤️
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Rui
12/3/2026 10:44:10
Obrigado por leres. Um xi 4 you RuiTx
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AutorEste é um espaço de escrita e partilha, em forma de blog, onde dou forma às reflexões que me atravessam sobre o que é ser humano. Arquivos
Abril 2026
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