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Hoje penso que há problemas mais graves que os sentidos aquando da revolução tecnológica e da revolução industrial. Ao menos essas eram humanas.
Agora estamos na era da revolução digital, em que se perde o senso do que é real, do que é artificial, da ilusão da verdade, e isso acaba por me causar algum tipo de confusão. Penso que até nos vai colocar num estado de alerta permanente, a tentar observar constantemente, sempre que utilizamos as redes digitais, o que é que é real. O que é que foi realmente escrito por aquela pessoa. Será que aquele vídeo e aquela voz é mesmo aquela pessoa. Parece que vivemos num cenário de guerra, em que somos bombardeados numa luta por uma atenção que está cada vez mais dispersa. Por isso estou a escolher cada vez mais ir para o analógico, escolher o livro, a folha, a pausa, escolher o disco, um disco de cada vez, sem ter de escolher a torrente de ondas de música que os streamings oferecem. Ou os serviços de streaming de séries, filmes. Tudo está tão fútil, fácil, fadado e gasto. Tudo é tão rápido agora que chega quase a ser estéril. Sinto-me cansado de ter de escolher tanto nas hipóteses. Por isso, por vezes só apagar o meu footprint digital, desligar a internet, desligar-me do mundo a correr para lado nenhum e ficar só com os livros, com a pausa clara de observar a natureza, dos pés na terra, na areia, da sensação de voltar a tocar uma árvore, a jogar com as crianças ou apenas a olhar para o vazio e imaginar cenários. Sinto que precisamos de nos libertar um pouco desta prisão digital e artificial. Nada contra a inteligência artificial, seja o que é que isso for, porque na verdade é só mais uma construção da humanidade para facilitar a nossa evolução. Estamos a tender ao facilitismo, dualismo, extremismo que nos está a levar à solidão, ao vazio, à depressão, à ausência de sentido, à ausência de estar, à ausência de ser. Respiro fundo, pauso o que vou escrever a seguir, pois também isso vai ficar registado de forma digital, para que um dia, talvez daqui a uns anos, alguém leia e perceba. Ele já estava desperto no meio de tanta desinformação e distração para ludibriar a consciência de quem quer evoluir no seu desenvolvimento humano. 24 de abril de 2026
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Pergunto-me muitas vezes em que momento algo que atravessa um filtro — digital ou analógico — deixa de ser verdadeiramente nosso.
Talvez esta pergunta tenha começado há muitos anos, quando deixei a máquina de escrever e passei para o computador. Houve aí uma mudança silenciosa na relação com a palavra. A escrita deixou de ter o peso mecânico da tecla, o som seco da pancada no papel, a inevitabilidade do erro visível. Passou a existir a facilidade de apagar, corrigir, reorganizar, como se a própria ideia pudesse tornar-se mais maleável e menos definitiva. Mais tarde aconteceu algo semelhante com a fotografia, quando transitei do analógico para o digital. A imagem deixou de pedir espera. Já não havia o tempo da revelação, a surpresa do negativo, o intervalo entre o momento vivido e o momento observado. Tudo passou a ser imediato, editável, repetível. E, com isso, algo se ganhou, mas talvez algo também se tenha diluído. Esta transformação não se ficou pela escrita ou pela imagem. Sou utilizador de música em formato digital há cerca de 24 anos. A música acompanha-me assim há grande parte da minha vida. Há cerca de 2 anos separei-me de 90% dos meus CDs, porque senti que já não os utilizava. Nesse caso, não ter a parte física do disco não me trouxe grande perda. O que me move na música é a escuta, a liberdade de saltar entre artistas, géneros e épocas, porque o meu gosto sempre foi profundamente eclético. Curiosamente, raramente paguei pelos serviços de streaming para escutar música. Há algo em mim que sente que esse modelo nem sempre é a melhor forma de honrar quem cria. Talvez devido a isso, sempre que posso, escolho ir a concertos e viver a experiência viva, quase analógica, do som no corpo, da vibração no espaço, da presença partilhada com outros. E quando compro música, muitas vezes faço-o diretamente à banda, ainda que por via digital, porque aí sinto uma relação mais direta com a origem da criação. No meio disto tudo, há uma coisa que permanece profundamente analógica para mim: os livros. A minha biblioteca a esta data conta com 373 livros e apenas 61 são em digital porque só assim os conseguia. Ler no digital nunca teve para mim a mesma presença. Não tem o mesmo impacto da palavra impressa. Falta-lhe o peso do livro nas mãos, o tato do papel, o deslizar dos dedos sobre a página, o cheiro, a espessura, a sensação física de avançar e de habitar a leitura com o corpo inteiro. No livro, o corpo participa. E talvez seja por isso que sinto que, depois de tanta anestesia digital, haverá inevitavelmente um regresso ao analógico. Não por nostalgia, mas por necessidade de presença. Quanto mais mediada se torna a experiência, mais o corpo parece pedir realidade. Talvez também por isso me fascine tanto observar canais de pessoas que vivem fora da rede — no Alasca, na Sibéria, em condições extremas, longe da hiperconectividade que marca o nosso quotidiano. Há algo nessas vidas mais cruas que me recorda a essência do humano. Uma relação mais direta com o tempo, com a matéria, com a sobrevivência, com a simplicidade do gesto. Isso faz-me pensar no que temos vindo a perder à medida que ganhamos comodidade. Ouvi recentemente uma frase que ficou a ecoar em mim: commodities gain, skills lost, em português deve ser algo como: comodidades adquiridas, habilidades perdidas. Quanto mais comodidade, mais algumas competências se perdem. E isso fez-me refletir profundamente sobre as aptidões que deixámos de cultivar porque passámos a delegá-las — à tecnologia, aos sistemas, ao outro. No meu caso, por viver com neurodivergência e com leve dislexia, tanto na escrita como na oralidade, utilizar ferramentas que transformam pensamento em texto ou áudio tornou-se profundamente libertador. Talvez não saibas, mas durante muitos anos a minha relação com a palavra escrita e a leitura nem sempre foi simples, fui um daqueles alunos que penou um pouco no ensino obrigatório, excepto quando estudei artes entre o 10ª e 12ª anos. Então ler publicamente era (e ainda é) um dos meus maiores medos e bloqueios, santa terapia que tirou esse mal de mim. Por isso poder hoje usar a oralidade como ponte para a escrita é uma forma de liberdade, criatividade e não uma prisão. Por isso, não sinto a tecnologia como algo que me retira identidade. Pelo contrário, quando usada com consciência, sinto-a como uma extensão que me permite expressar-me de forma mais autêntica. Mas também sei que, se um dia tudo falhar, continuo a ter aquilo que sempre esteve comigo: papel e caneta, preta de cor para melhor contrastar com o imaculado papel. Aliás, foi precisamente aí que tudo começou. Foi no journaling, na escrita manual, no diário íntimo dos últimos quatro anos, que estas reflexões começaram a nascer. Antes de qualquer aplicação, antes de qualquer ferramenta, houve a relação direta entre pensamento, corpo e palavra. Houve a pausa. Houve o gesto de escrever à mão aquilo que ainda não sabia nomear. Talvez a grande questão do nosso tempo não seja escolher entre digital ou analógico, mas perceber o que cada um faz à nossa presença, à nossa autonomia e à nossa humanidade. O que nos aproxima de nós? O que nos afasta? O que nos massifica? E o que ainda preserva a singularidade do gesto? Talvez a reflexão seja esta: — Que competências, aptidões ou formas de presença tens vindo a delegar por comodidade, e o que isso tem feito à tua relação contigo próprio? 16 de abril de 2026 #epifaniareflexiva #blog #notasdeser O que é, realmente, o medo?
Esta é uma pergunta que me acompanha muitas vezes. Não como uma ideia para responder de imediato, mas como uma pergunta para permanecer, para escutar, para sentir no corpo e na história de cada pessoa. O medo pode, por vezes, ser um fator de evolução. Há medos que nos obrigam a olhar para dentro com mais honestidade, que nos mostram onde ainda não existe integração, onde ainda há partes nossas por compreender. Nesse sentido, o medo não surge apenas como obstáculo; pode surgir como sinal, como consciência, como um ponto de atenção que pede presença. Mas nem sempre é vivido assim. Muitas vezes, o medo nasce não da falta de segurança, mas da necessidade de querer controlar o que vem a seguir. Existe uma parte da mente que procura antecipar tudo, prever tudo, garantir que o próximo passo não trará dor, perda ou instabilidade. Quando isso não é possível, instala-se a inquietação. O desconhecido passa a ser vivido como ameaça, quando na verdade pode ser apenas vida ainda por revelar-se. Outras vezes, o medo vem de trás. Das formas como a pessoa viveu, sentiu e experienciou o passado. De memórias emocionais que continuam ativas, mesmo quando a situação original já terminou. Há experiências que deixam marcas subtis e profundas na forma como alguém se relaciona consigo, com os outros e com o futuro. O medo, nesses casos, não fala apenas do presente; fala também daquilo que um dia feriu, confundiu ou fragilizou. Também vejo, enquanto terapeuta, que por vezes o medo nasce da dificuldade em a pessoa se compreender e aceitar. Quando não há espaço interno para acolher aquilo que se sente, o medo pode tornar-se uma espécie de linguagem do próprio conflito interno. Não é apenas medo do mundo, do futuro ou da mudança; é, por vezes, medo de si mesmo, do que poderá descobrir, do que poderá ter de reconhecer. E é aqui que a pergunta ganha profundidade: o medo faz-nos evoluir ou faz-nos estagnar? A resposta nem sempre é linear. Há medos que expandem a consciência. No Human Design, fala-se muitas vezes dos medos como fontes de awareness, de verdade e de consciência. Gosto desta visão porque ela não coloca o medo como algo a eliminar, mas como algo a escutar. Certos medos mostram-nos precisamente aquilo que ainda precisa de ser visto. Trazem desconforto, sim, mas esse desconforto pode ser profundamente revelador. Ao mesmo tempo, também observo que, por vezes, o medo se transforma num lugar onde a pessoa se limita. Enquanto o medo ocupa o centro da desculpa, pode tornar-se mais fácil justificar a não ação, o adiamento de escolhas, a permanência em relações, contextos ou padrões que já não servem. Nesses momentos, o medo deixa de ser consciência e passa a funcionar como contenção, quase como uma proteção contra a responsabilidade de assumir o papel que a vida está a pedir. E talvez esta seja uma das partes mais delicadas de olhar. Por vezes, a pessoa diz que é medo, mas no fundo o que existe é resistência à mudança, resistência ao crescimento, resistência a habitar a versão de si que sabe que já está a emergir. O medo pode bloquear a relação consigo próprio. Pode bloquear a intimidade com o outro. Pode bloquear o acesso ao que, no íntimo, sabe ser correto viver. Por isso continuo a perguntar: o que é realmente o medo? Será um mecanismo de proteção? Uma memória antiga ainda ativa? Uma fonte de consciência? Ou uma forma subtil de permanecer onde tudo é conhecido, mesmo quando já deixou de fazer sentido? Talvez o medo seja, muitas vezes, a fronteira entre quem fomos e quem estamos a ser chamados a tornar-nos. E talvez a verdadeira questão não seja livrarmo-nos dele, mas perceber se ele está a mostrar uma verdade ou a impedir-nos de vivê-la. 10 de abril de 2026 #epifaniareflexiva #blog #notasdeser |
AutorEste é um espaço de escrita e partilha, em forma de blog, onde dou forma às reflexões que me atravessam sobre o que é ser humano. Arquivos
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