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A ansiedade que nos consome
Vivemos tempos de instabilidade. Tempos em que o medo aparece com facilidade e, muitas vezes, sem pedir licença. E quando o medo entra a mente começa a rodopiar. Rodopia como um animal feroz que se encontra enjaulado. Cheio de força, cheio de vida, mas sem espaço para ir. Fica ali - às voltas sobre si próprio. E, de certa forma, também nós vivemos assim. Rodopiamos entre o hoje e o amanhã. Olhamos para o futuro e voltamos ao presente. Voltamos ao presente e voltamos a imaginar o futuro. Nesse movimento constante nasce a ansiedade. Mas o hoje - este momento simples que está aqui - pode ser confortável ou profundamente desconfortável. Tudo depende da lente com que escolhemos olhar. Podemos olhar o mundo a partir do medo. Ou da verdade. A partir da experiência viva do corpo. Ou das ilusões que habitam a mente e os ecrãs. A forma como te condicionas a ver o mundo acaba por moldar aquilo que recolhes dele. E às vezes pergunto-me se o mundo que vemos lá fora não será também uma projeção silenciosa daquilo que somos cá dentro. — Que mundo estás a alimentar quando deixas a tua mente rodopiar? 12.03.2023 #humanreset #epifaniareflexiva #blog
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Ao longo dos anos fui percebendo que a forma como amo mudou. Durante muito tempo procurei aprender a amar-me e a amar os outros, como se o amor fosse algo que tivesse de alcançar ou conquistar. Mas nos últimos quatro anos algo começou a transformar-se silenciosamente em mim.
De certa forma, deixei de tentar amar de uma determinada maneira. Comecei, antes, a amar a própria vida. A render-me um pouco mais ao que ela é. A perceber que mesmo no caos, mesmo na incerteza, pode existir uma forma de amor que não depende das circunstâncias. Para mim, hoje, amor aproxima-se muito da aceitação. Uma espécie de rendição ao que é. Não uma resignação passiva, mas um reconhecimento profundo de que a vida acontece para além das nossas ideias sobre como ela deveria ser. Muitas pessoas chamam-lhe universo. Outras chamam-lhe divino, consciência, presença ou simplesmente vida. As palavras mudam, mas aquilo a que apontam parece ser sempre o mesmo: tudo o que existe. Talvez por isso o título do meu livro tenha surgido de forma tão natural: Se tudo for nada, nada serei. Porque, às vezes, quando retiramos as projeções e as expectativas, o amor parece ser exatamente isso — tudo e nada ao mesmo tempo. Também percebi que cada pessoa olha para o amor através da sua própria lente. Para alguns é sentimento, para outros é escolha, para outros ainda é uma prática ou um estado de consciência. E por vezes pergunto-me: será que o amor é algo que sentimos… ou algo que somos? A verdade é que esta palavra foi usada tantas vezes, por tantas tradições, religiões, filosofias e discursos espirituais, que acabou por se tornar, em muitos contextos, quase vazia. O amor tornou-se um ideal a alcançar, uma promessa distante, uma moeda de troca, ou até uma forma subtil de manipulação e condicionamento. Talvez por isso comece a sentir que amar sem ilusão é algo mais simples — e ao mesmo tempo mais desafiante. Talvez seja simplesmente ser quem somos. Com virtudes e falhas. Com luz e sombra. Com momentos de clareza e momentos de confusão. Ser humano na imperfeição de um universo que também parece imperfeito. Vivemos tempos que muitas vezes parecem caóticos. Mas, se olharmos para a história da humanidade, veremos que o caos sempre fez parte do movimento. Muitas vezes é dele que nasce uma nova ordem. Tal como da dor pode nascer uma compreensão mais profunda do amor. Curiosamente, muitas das vezes em que sentimos dor é precisamente porque amámos. Estar vivo, nesta pele humana, é viver a experiência das dualidades. Amor e medo. Confiança e dúvida. Expansão e retração. Tudo parece mover-se entre polos. Talvez seja essa própria dualidade que nos confunde. Porque aprendemos a acreditar que, se num momento sentimos medo, então deixámos de amar. Ou que, se a dúvida aparece, então algo está errado dentro de nós. Mas talvez o amor não seja a ausência dessas experiências. Talvez seja simplesmente a capacidade de continuar presente no meio delas. E quando olho para o mundo atual, onde tantas vezes o medo parece dominar, pergunto-me o que ficará realmente deste conceito de amor. Talvez daqui a alguns anos possamos olhar para trás e perceber que o amor nunca foi uma ideia perfeita, nem um estado permanente. Talvez tenha sido sempre algo mais simples: a aceitação de sermos quem somos. E talvez, quando essa aceitação se tornar mais natural — em nós e entre nós — o medo deixe de ser a nota dominante desta música que estamos a tocar. Nesse momento, a manipulação poderá revelar-se apenas como uma escolha ou uma ilusão. E o condicionamento deixará de ser destino, passando a ser apenas uma forma possível — entre muitas — de viver em sociedade. 08.03.2026 / #epifaniareflexiva #autoconhecimento # blog #notasdeser Vivemos tempos de mudança.
Mudança necessária, ainda que não a compreendamos por inteiro. Talvez este não seja um tempo de respostas imediatas, mas de pausa. De observação. De uma reflexão honesta sobre o que andamos cá a fazer e qual é, verdadeiramente, o papel de cada um nesta humanidade. Pergunto-me muitas vezes que mundo queremos deixar às crianças que hoje crescem connosco. Que humanidade desejamos habitar quando formos séniores. Que valores estarão vivos quando já não estivermos aqui para os defender. Nem sempre tenho respostas. E quando as tenho, são tão profundas que quase não cabem em palavras. Talvez porque estas perguntas não se respondam em voz alta, respondem-se na forma como vivemos. Estamos numa revolução que não é industrial, mas digital. Estratégica. Silenciosa. Transformadora. Temos medo dos imigrantes, mas não percebemos que muitas funções estão a ser substituídas por inteligência artificial. Temos medo dos robôs, quando já vivemos como extensões de um telefone. Num meio digital, sob um controlo difuso que raramente questionamos, vamo-nos adaptando sem perceber o preço. Dizemos que são tempos difíceis. Mas serão difíceis ou apenas disruptivos? Será o medo do amanhã que nos pesa? A imprevisibilidade? O vazio do que ainda não sabemos nomear? Se continuarmos numa rota de colisão connosco e com o planeta, talvez nos tornemos apenas mais uma espécie em extinção. E, olhando friamente, isso não seria propriamente trágico para a natureza. A natureza sabe manter-se. Reinventa-se. Regenera-se. Nós é que esquecemos que somos parte dela. Como dizia Ra, o fundador do Human Design, somos apenas “killer monkeys”. Continuamos a lutar por território, por poder, por sobrevivência, como se a existência do outro ameaçasse a nossa. Essa herança genética ainda nos governa mais do que admitimos. E, no entanto, temos algo mais. Um cérebro capaz de consciência. Uma mente que tanto constrói como destrói. Uma capacidade de escolher que vai para além do instinto. Talvez o verdadeiro estado das coisas não esteja fora, mas na forma como usamos essa mente. Se a usamos para perpetuar o medo e o controlo, ou para criar algo diferente. Quando a madeira arde, transforma-se em cinza. E a cinza, curiosamente, fertiliza o solo. Talvez estejamos num tempo de queima. Não para destruir por destruir, mas para preparar terreno. A questão é simples e exigente: o que estás disposto a deixar arder -- para que algo mais verdadeiro possa crescer? 03.03.2026 #epifaniareflexiva #blog #notasdeser Há uma experiência sem som, sem palavras que quase todos conhecemos, mas poucos sabem explicar: estar sozinho no meio da multidão.
Estar rodeado de pessoas, estímulos, conversas, compromissos e, ainda assim, sentir um vazio. Uma espécie de desamparo subtil. Como se algo estivesse desconectado. Como se estivéssemos ali… mas não inteiros. Que solidão é esta? Não é a ausência de pessoas. Não é o silêncio exterior. É algo mais interno. É a sensação de não sermos vistos como realmente somos. De estarmos acompanhados, mas não compreendidos. De pertencermos a um espaço onde, para caber, precisamos de encolher partes de nós. Ao longo dos meus anos de prática, tenho observado algo curioso: muitas vezes aquilo que chamamos de solidão não é solidão verdadeira. É uma necessidade de pausa. É o nosso sistema a pedir menos interferência, menos ruído, menos expectativa. É o nosso ser a tentar reajustar-se. Mas confundimos isso. Confundimos solitude com solidão. A solidão dói porque depende do outro. Depende de sermos reconhecidos, acolhidos, confirmados. Surge quando acreditamos que precisamos de alguém para validar a nossa existência. Quando sentimos que não pertencemos ou que só pertencemos se deixarmos de ser intensos, diferentes, sensíveis. A solitude é diferente. A solitude é um espaço escolhido, ou pelo menos aceite. É um recolhimento fértil. É estar só sem estar em falta. É um lugar onde não precisamos de representar nada para ninguém. Onde podemos descansar da personagem, das personas, das adaptações. A solitude não é vazio. É presença. À luz do Human Design, isto torna-se ainda mais interessante. Existem seres mais marcadamente individuais, cuja natureza é caminhar a sua individualidade, explorar a própria singularidade, seguir um ritmo próprio que nem sempre é compreendido pelo coletivo. Existem seres mais orientados para o coletivo, cujo foco está na partilha, na educação, na contribuição para a humanidade. E existem aqueles mais tribais, cujo centro é a família, o grupo próximo, a sobrevivência da sua “tribo”. Nenhuma destas energias é melhor do que a outra. São apenas formas diferentes de estar. O problema surge quando vivemos fora da nossa natureza. Quando um ser individual tenta encaixar excessivamente no coletivo e sente que não pertence. Quando alguém com uma mecânica tribal tenta viver isolado, negando a necessidade de laço e suporte. Quando forçamos características que não são nossas porque parecem mais aceites, mais valorizadas. E é aí que a solidão aparece. Não porque estamos sozinhos, mas porque estamos desalinhados com o nosso Ser, a nossa verdadeira Natureza. Muitas vezes escolhemos mal o cenário onde expressamos as nossas características. Tentamos usar a nossa vocação coletiva num espaço que pede individualidade. Ou forçamos uma identidade individual quando, na verdade, precisamos de pertença e partilha. Essa fricção interna cria uma sensação de deslocação. E chamamos-lhe solidão. Mas talvez não seja solidão. Talvez seja um convite. Um convite a observar: onde é que estou a forçar? Onde é que estou a encolher? Onde é que estou a tentar caber numa narrativa que não é a minha? A solidão pode ser dor quando nasce da desconexão. A solitude pode ser sabedoria quando nasce da consciência. E muitas vezes aquilo que julgamos como menos positivo, o sentir-nos à margem, diferentes, deslocados, pode ser o início de uma compreensão mais profunda de quem somos. Pode ser o momento em que deixamos de procurar fora aquilo que só pode ser reconhecido dentro. Hoje deixo-te esta pergunta: O que estás realmente a sentir, solidão ou solitude? E, mais importante ainda, o que é que essa sensação te está a querer ensinar sobre ti? 22.02.2026 #epifaniareflexiva #blog #notasdeser Vivemos num verdadeiro campo de batalha invisível, onde a disputa já não é por território, mas pela nossa atenção. Todos os dias somos expostos a uma avalanche de conteúdos, opiniões, vídeos, notícias, tendências e participamos nessa dinâmica quase sem perceber. Observamos, reagimos, consumimos.
Mas, no final do dia, o que é que realmente fica? Que pensamento amadureceu? Que verdade se consolidou dentro de nós? Muitas vezes, o que resta é um ruído difuso, uma sucessão de ideias superficiais que não criam raiz. Estamos cheios de estímulos e, paradoxalmente, cada vez mais vazios. Sentimo-nos desconectados, mas continuamos a procurar fora as respostas que só poderiam nascer dentro. Talvez a desconexão não venha da falta de informação, mas do excesso dela e da ausência de reflexão verdadeira. Pergunto-me se, nesta busca constante por orientação externa, não nos teremos afastado da nossa própria autoridade interior. Da capacidade de pensar criticamente. De sentir com profundidade. De discernir. Aquilo que nos distingue das máquinas não é a velocidade com que processamos dados, mas a consciência com que lhes damos significado. No entanto, começamos a viver como se fôssemos extensões de algoritmos, reagindo mais do que escolhendo. Olhamos para trás e já quase não nos reconhecemos naquilo que fomos. Olhamos para o futuro e sentimos incerteza. E no presente, ficamos suspensos entre expectativas vendidas como sonhos e uma realidade que raramente corresponde ao que nos prometeram. Há uma sensação de esmagamento, como se estivéssemos entre o que era e o que ainda não sabemos ser. Neste contexto, sonhar fora do padrão tornou-se um ato de rebeldia. Pensar de forma autónoma, questionar narrativas dominantes, recusar viver anestesiado, tudo isso exige coragem. Talvez sejam precisamente esses que ousam manter a lucidez e a imaginação viva que irão fazer a diferença. Não num futuro distante. Mas agora. A questão é simples e exigente ao mesmo tempo: onde tens colocado a tua atenção? E que tipo de ser humano estás a alimentar com ela? 13.02.2026 #crónica #blog #notasdeser #livro |
AutorEste é um espaço de escrita e partilha, em forma de blog, onde dou forma às reflexões que me atravessam sobre o que é ser humano. Arquivos
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