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Vivemos tempos de mudança.
Mudança necessária, ainda que não a compreendamos por inteiro. Talvez este não seja um tempo de respostas imediatas, mas de pausa. De observação. De uma reflexão honesta sobre o que andamos cá a fazer e qual é, verdadeiramente, o papel de cada um nesta humanidade. Pergunto-me muitas vezes que mundo queremos deixar às crianças que hoje crescem connosco. Que humanidade desejamos habitar quando formos séniores. Que valores estarão vivos quando já não estivermos aqui para os defender. Nem sempre tenho respostas. E quando as tenho, são tão profundas que quase não cabem em palavras. Talvez porque estas perguntas não se respondam em voz alta, respondem-se na forma como vivemos. Estamos numa revolução que não é industrial, mas digital. Estratégica. Silenciosa. Transformadora. Temos medo dos imigrantes, mas não percebemos que muitas funções estão a ser substituídas por inteligência artificial. Temos medo dos robôs, quando já vivemos como extensões de um telefone. Num meio digital, sob um controlo difuso que raramente questionamos, vamo-nos adaptando sem perceber o preço. Dizemos que são tempos difíceis. Mas serão difíceis ou apenas disruptivos? Será o medo do amanhã que nos pesa? A imprevisibilidade? O vazio do que ainda não sabemos nomear? Se continuarmos numa rota de colisão connosco e com o planeta, talvez nos tornemos apenas mais uma espécie em extinção. E, olhando friamente, isso não seria propriamente trágico para a natureza. A natureza sabe manter-se. Reinventa-se. Regenera-se. Nós é que esquecemos que somos parte dela. Como dizia Ra, o fundador do Human Design, somos apenas “killer monkeys”. Continuamos a lutar por território, por poder, por sobrevivência, como se a existência do outro ameaçasse a nossa. Essa herança genética ainda nos governa mais do que admitimos. E, no entanto, temos algo mais. Um cérebro capaz de consciência. Uma mente que tanto constrói como destrói. Uma capacidade de escolher que vai para além do instinto. Talvez o verdadeiro estado das coisas não esteja fora, mas na forma como usamos essa mente. Se a usamos para perpetuar o medo e o controlo, ou para criar algo diferente. Quando a madeira arde, transforma-se em cinza. E a cinza, curiosamente, fertiliza o solo. Talvez estejamos num tempo de queima. Não para destruir por destruir, mas para preparar terreno. A questão é simples e exigente: o que estás disposto a deixar arder -- para que algo mais verdadeiro possa crescer? 03.03.2026 #epifaniareflexiva #blog #notasdeser
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AutorNotas de Ser é um espaço de escrita e partilha, em forma de blog, onde dou forma às reflexões que me atravessam sobre o que é ser humano. Arquivos
Março 2026
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